Jogos Vorazes: por que a primeira montagem de Amanhecer na Colheita tinha 4h12?

Redatora e crítica do The Cine Search, assina as análises de filmes e séries do portal. Escreve sobre lançamentos do cinema e do streaming olhando para roteiro, direção e atuações: parte do que a obra se propõe a fazer e diz, sem spoiler, se ela cumpre. Também assina guias de onde assistir e textos que explicam temporadas e finais para quem quer entender a série depois dos créditos.

A primeira montagem de Amanhecer na Colheita tinha 4h12. Entenda a diferença de 94 minutos até a versão de cinema e o que Francis Lawrence explicou sobre os cortes.
A primeira montagem de Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita tinha quatro horas e doze minutos. A versão de cinema tem duas horas e trinta e oito. Se você está imaginando uma hora e meia de cenas inéditas do Haymitch, o diretor tem uma explicação bem menos óbvia.
Em entrevista repercutida pelo AdoroCinema, Francis Lawrence contou que a montagem começou enquanto a equipe ainda filmava. O editor reunia as cenas com as entradas, as saídas e os diálogos mais completos. O resultado era uma versão de trabalho que deixava a equipe enxergar o filme inteiro antes de decidir quanto tempo cada momento merecia.
São 94 minutos de diferença. Mas o que esse número realmente diz sobre o que saiu?
Imagina uma cena fictícia. Uma mulher entra numa cozinha e pergunta se o irmão já chegou. A mãe responde que sim. A mulher larga a bolsa, olha pela janela e pergunta se ele voltou sozinho. Agora corta tudo até essa última pergunta. Se a mãe demora a responder, o público entende que alguém voltou e que havia motivo para temer a companhia. Você encurtou a conversa e deixou mais espaço para o silêncio que importa.
É o tipo de ajuste que ajuda a entender a explicação de Lawrence. Uma sequência pode continuar no filme mesmo depois de perder várias falas. O que muda é o instante em que ela começa a fazer efeito. E, quando isso acontece em muitas cenas, a diferença de duração vai se acumulando.
Só que, em Amanhecer na Colheita, existe um bom argumento para deixar certas cenas respirarem. O protagonista é um personagem que o público já conhece, mas numa fase da vida que os primeiros filmes deixaram em grande parte fora de quadro.
Joseph Zada interpreta Haymitch Abernathy aos 16 anos, vinte e quatro anos antes da história de Katniss. A trama começa na manhã da colheita da quinquagésima edição dos Jogos, o Segundo Massacre Quaternário. A Capital leva o dobro de tributos. E a gente já sabe, pelos filmes anteriores, que aquele garoto chega à idade adulta e se torna mentor de Katniss e Peeta.
Isso muda o tipo de suspense que a história pode construir. Quando a gente vê o Haymitch adulto aconselhando os dois, ele parece conhecer de antemão o jeito como a Capital vai transformar qualquer gesto em espetáculo. Ao voltar para a juventude dele, a adaptação tem a chance de mostrar como ele aprendeu a ler esse jogo. E esse aprendizado também pode estar numa conversa antes da arena, numa aliança improvável ou no momento em que ele percebe quem está assistindo.
Aqui entra uma diferença entre o livro e o cinema. Suzanne Collins conta a história pela perspectiva de Haymitch. Na página, o leitor pode acompanhar a distância entre o que ele pensa e o que decide dizer. No cinema, essa mesma distância pode aparecer numa pausa, num olhar ou na maneira como outra pessoa reage à fala dele. A montagem precisa decidir quanto tempo dar ao espectador pra perceber isso. Um segundo a menos pode fazer uma hesitação passar despercebida. Alguns segundos a mais podem transformar a mesma hesitação na parte mais importante da cena.
Por isso, a duração final também chama atenção. Duas horas e trinta e oito ainda dão bastante espaço à história. A questão é como esse tempo é distribuído. Quanto a gente conhece da vida de Haymitch antes da colheita? Quanto tempo o filme dá às relações que ele forma? E, quando a arena vira o centro da história, a gente ainda consegue sentir o que ele deixou do lado de fora? São perguntas que valem mais, na hora de assistir, do que tentar adivinhar quantas cenas foram cortadas.
Então, o que saiu daqueles 94 minutos? O relato de Lawrence aponta para pausas, repetições e trechos que alongavam as cenas. A matéria que repercutiu a entrevista não traz uma lista dos cortes. Ainda fica em aberto quanto desse tempo veio de cenas inteiras e quanto saiu em pequenos ajustes espalhados pelo filme.
No Brasil, a Paris Filmes anunciou sessões antecipadas a partir de 18 de novembro e estreia em 19 de novembro. Quando você assistir, repara no primeiro momento em que o jovem Haymitch faz alguma coisa que lembra o mentor dos filmes anteriores. Talvez seja uma fala. Talvez seja o tempo que ele leva pra decidir se vale a pena falar. É ali que uma escolha de montagem pode fazer uma história de origem mudar a forma como você enxerga um personagem que conhece há anos.